A naturalização da violência contra mulher numa cultura machista

    






 


O romancista Bernardo Guimarães trouxe no livro "a escrava Isaura" o assédio sofrido por Isaura por parte do seu senhor,  Leoncio. Saindo do campo ficcional, o comportamento de Leoncio, HOJE, seria caracterizado como tentativa de estupro. 

“Art. 213 – Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso. Pena – reclusão, de 6 (seis) a 10 (dez) anos" 

  Apesar dos avanços legislativos, a naturalização da violência contra mulher permanece. Ocorre 135 estupros POR DIA, apurou o Fórum Brasileiro de Segurança Pública e segundo o Ministério da Saúde 89% das vítimas são do sexo feminino e em geral tem baixa escolaridade. 


    Para Nietzsche, a violência é intrínseca ao ser humano e tem como raíz a dominação de uma pessoa sobre outra. Então, quando a cultura patriarcal ensina suas crianças que o sexo feminino representa fragilidade e o sexo masculino representa força, corrobora com as ideias de violência nietzschenianas, pois é muito mais fácil dominar um  ser teoricamente mais frágil do que um ser de igual medida. É fácil comprovar essa noção, já que 70 % dos casos de estupro ocorre com crianças e adolescentes - em sua maioria do sexo feminino. Desconstruir essa estatística é acabar com uma modelo de educação estruturalmente machista e ineficaz na formação de cidadãos. Ao pensar em educação para solucionar o problema brasileiro, podemos olhar os dados de Portugal, uma referencia em educação. Em 2015 registrou  2.579 crimes sexuais, sendo 375 estupros, uma disparidade aos dados brasileiros. 
        
     As bases do mundo ocidental é a cultura grega, de lá tiramos nossa noção de democracia. No entanto, trouxemos dela também um histórico de naturalização da violência contra mulher. Como o caso de Zeus, o topo do panteão grego. Ele se transformou em um touro branco, sequestrou - levou para a Ilha de Creta - e estuprou Europa, do crime, nasceu o Semi-deus Minos. Zeus jamais pagou pelo seus crimes, é claro. 


"A mitologia clássica está repleta de estupros, muitas vezes praticados por um deus licencioso. Assim, Zeus estuprou Europa e Leda; Dionisio, Aura; Posêidon, Etra; Apolo, Evadne. É digno de nota que todos esses estupros tenham resultado em filhos, que, em vez de personificarem a vergonha, eram semideuses " - Longe da Árvore, Andrew Solomon.

Ao contrário de Zeus, Laio quando estuprou Crisipo  foi amaldiçoado . A maldição do crime de Laio deu origem a uma das maiores peças teatrais grega: Édipo Rei.   Édipo é filho de Jocasta e Laio. O pai recebeu do Oráculo de Delfos que não deveria ter filhos, pois esse seria sua ruína e casaria - se com sua esposa. Fica notado, portanto, uma cultura que desde os primórdios naturaliza a violência contra mulher, já que quando é contra um homem, a punição é severa. É tão natural que não se questiona o comportamento desses deuses jogados  na mídia como fortes e sedutores. O site Wikipedia, por exemplo, registra Europa como uma das paixões de Zeus, não sua vítima. 



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